Mitologia Yoruba: A Herança Ancestral Africana no Brasil
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A Mitologia Yoruba representa um dos mais ricos e complexos sistemas de crenças trazidos ao Brasil durante a diáspora africana. Originária do povo Yorubá (também chamado de iorubá), que habita principalmente a Nigéria, Benin e Togo, esta tradição milenar sobreviveu à travessia do Atlântico e se enraizou profundamente na cultura brasileira. Através de suas divindades, os orixás, seus mitos de criação e sua visão de mundo, a mitologia yoruba nos oferece uma janela para compreender não apenas a espiritualidade africana, mas também importantes aspectos da identidade cultural brasileira.

Representação artística dos orixás da Mitologia Yoruba
Origens e Preservação da Mitologia Yoruba
Os iorubás constituem um dos principais grupos étnicos da África Ocidental, com uma história que remonta a mais de 2.000 anos. Por volta do século VI, eles já haviam estabelecido importantes cidades como Ifé, considerada o berço da civilização iorubá e, segundo seus mitos, o local onde o mundo foi criado. Durante séculos, os iorubás desenvolveram reinos e impérios poderosos, como o Império de Oió, que só foi desfeito no século XIX.
Com a escravização e o tráfico transatlântico, milhões de africanos, incluindo muitos iorubás, foram trazidos forçadamente para o Brasil. Aqui, eram conhecidos como “nagôs”, termo pelo qual os membros da etnia fon se referiam aos iorubás. Apesar das terríveis condições da escravidão, esses povos conseguiram preservar elementos fundamentais de sua cultura e religiosidade, adaptando-os ao novo contexto e criando formas de resistência cultural.

Ifé, na Nigéria, considerada o berço da civilização Yoruba
A preservação da mitologia yoruba no Brasil ocorreu principalmente através da tradição oral e da prática religiosa, que deram origem ao Candomblé e influenciaram outras religiões afro-brasileiras. Sem textos sagrados escritos, os conhecimentos sobre os orixás, rituais e mitos foram transmitidos de geração em geração, mantendo viva uma cosmovisão que valoriza a harmonia com a natureza, o respeito aos ancestrais e a conexão entre o mundo material e espiritual.
Cosmogonia Yoruba: A Criação do Mundo
Na mitologia yoruba, existem diferentes versões sobre a criação do mundo, mas todas compartilham elementos essenciais que revelam a visão iorubá sobre a origem do universo e da humanidade.

Representação artística da criação do mundo segundo a mitologia yoruba
No princípio, existia apenas Olodumarê (também chamado de Olorum), o ser supremo que governava o Orun (céu). A Terra era uma imensidão de pântanos governada por Olokun, guardiã da memória ancestral. Olodumarê encarregou Obatalá, o orixá da criação, de formar o mundo terreno.
Em uma das versões mais conhecidas, Obatalá desceu do Orun por uma corrente dourada, trazendo consigo um saco com terra, uma galinha e uma semente de dendezeiro. Ao chegar sobre as águas primordiais, espalhou a terra, que foi espalhada pela galinha, formando o solo firme chamado Aiyê (o mundo material). Plantou então a semente de dendê, que cresceu e deu origem à vegetação.
Em outra versão, Obatalá falhou em sua missão por ter se embriagado com vinho de palma durante a jornada. Oduduwa, então, foi enviado para completar a tarefa, tornando-se o criador do mundo físico, enquanto Obatalá manteve o poder de criar os seres humanos.
Para povoar o mundo, Obatalá modelou os primeiros humanos a partir do barro, com a ajuda de Oduduwa. Olodumarê soprou nessas figuras o emi (sopro vital), dando-lhes vida. A primeira cidade habitada pelos humanos foi Ifé, considerada até hoje um local sagrado para os iorubás.
Os Orixás: Divindades da Mitologia Yoruba
Os orixás são divindades que personificam forças da natureza e aspectos da existência humana. Na tradição yoruba, existem centenas de orixás, mas alguns se tornaram mais conhecidos e cultuados, especialmente no Brasil. Cada orixá possui características próprias, símbolos, cores, comidas rituais e histórias (itãs) que explicam sua natureza e poderes.

Símbolos e ferramentas rituais dos principais orixás
Principais Orixás e suas Características
- Exu – Mensageiro entre os mundos, guardião dos caminhos e das encruzilhadas. É o primeiro a ser saudado em qualquer ritual, pois é ele quem leva as oferendas e pedidos aos demais orixás. Contrariamente a interpretações equivocadas, não representa o mal, mas sim a ordem, a comunicação e a transformação.
- Ogum – Orixá do ferro, da guerra e da tecnologia. Foi quem ensinou aos humanos a metalurgia e a agricultura. Representa a força, a coragem e a determinação. No Brasil, é frequentemente sincretizado com São Jorge.
- Oxóssi – Caçador habilidoso, orixá das florestas e da fartura. Simboliza a inteligência estratégica, a visão aguçada e a capacidade de prover sustento. Seu símbolo é o arco e flecha (ofá).
- Xangô – Orixá dos trovões e da justiça. Foi o quarto rei de Oió que, após sua morte, foi deificado. Representa a autoridade, a justiça e o poder. Seu símbolo é o machado de duas lâminas (oxé).
- Iansã – Orixá dos ventos e tempestades, senhora dos raios. Guerreira destemida, representa a liberdade, a paixão e a força feminina. Também é associada aos espíritos dos mortos (eguns).
- Oxum – Orixá das águas doces, da beleza e da prosperidade. Representa o amor, a fertilidade e a riqueza. Seu símbolo é o espelho (abebé) e suas cores são o amarelo e o dourado.
- Iemanjá – Rainha do mar, mãe de muitos orixás. Simboliza a maternidade, o acolhimento e a proteção. No Brasil, é amplamente celebrada em festas populares, especialmente no Ano Novo.
- Obaluaiê/Omolu – Orixá da cura e das doenças, especialmente as epidêmicas. Coberto de palha para esconder as marcas da varíola, representa a transformação através do sofrimento.

Iemanjá, orixá do mar, uma das divindades mais celebradas no Brasil
Além destes, existem muitos outros orixás importantes como Nanã (orixá ancestral das águas paradas e do lodo primordial), Oxumaré (orixá do arco-íris e da renovação), Logunedé (filho de Oxum e Oxóssi, que vive seis meses na água e seis meses na floresta), Obá (orixá do rio de mesmo nome, guerreira e uma das esposas de Xangô), entre outros.
Cada pessoa, segundo a tradição yoruba, está ligada a um orixá específico que rege sua cabeça (ori) e influencia sua personalidade e destino. Essa ligação é determinada através de consultas oraculares, como o jogo de búzios ou o oráculo de Ifá.
Rituais e Oferendas na Tradição Yoruba
Os rituais são elementos fundamentais na religiosidade yoruba, estabelecendo a comunicação entre os humanos e os orixás. Através de oferendas (ebós), cantos (orikis), danças e toques de tambor, os praticantes fortalecem sua conexão com as divindades e buscam equilíbrio espiritual.

Oferendas tradicionais para diferentes orixás
Cada orixá possui preferências específicas quanto às oferendas, que podem incluir alimentos, bebidas, flores e outros elementos. Por exemplo, para Oxum são oferecidos mel, champagne, frutas amarelas e douradas; para Xangô, quiabo com camarão (amalá), frutas vermelhas e bebidas fortes; para Iemanjá, flores brancas, perfumes e objetos relacionados à vaidade feminina.
As danças rituais são outro aspecto importante, onde cada orixá possui sua coreografia específica que representa seus atributos e histórias. Xangô dança simulando o controle dos trovões, Oxóssi imita os movimentos de caça, Iansã movimenta-se como os ventos tempestuosos, e assim por diante.
A música, especialmente o toque dos tambores (atabaques), é essencial nos rituais. Cada orixá possui seu ritmo e canções específicas que, quando executados, ajudam a estabelecer a conexão entre o mundo material (Aiyê) e o mundo espiritual (Orun).
“Na tradição yoruba, o ritual não é apenas uma cerimônia, mas um momento de renovação da energia vital (axé) e de reequilíbrio das forças cósmicas que regem a existência.”
— Provérbio Yoruba
O sistema oracular de Ifá, conduzido pelos babalaôs (sacerdotes), é utilizado para interpretar a vontade dos orixás e orientar os fiéis em decisões importantes. Através do jogo de búzios ou do opelê (corrente divinatória), são revelados os caminhos e as oferendas necessárias para resolver problemas ou alcançar objetivos.
A Influência Yoruba no Brasil: Candomblé e Umbanda
No Brasil, a mitologia yoruba encontrou terreno fértil para se desenvolver, adaptando-se ao novo contexto e dando origem a manifestações religiosas únicas como o Candomblé e influenciando a Umbanda. Essas religiões preservaram elementos essenciais da cosmovisão yoruba, ao mesmo tempo em que incorporaram influências indígenas e católicas.

Cerimônia de Candomblé, religião brasileira com forte influência yoruba
O Candomblé, especialmente na nação Ketu (de origem yoruba), mantém uma ligação mais direta com as tradições africanas originais. Nos terreiros, os orixás são cultuados através de rituais, oferendas e festas públicas onde as divindades “incorporam” em seus filhos iniciados, dançando ao som dos atabaques e apresentando suas características particulares.
A Umbanda, surgida no início do século XX, representa uma síntese religiosa brasileira que incorpora elementos do Candomblé, do espiritismo kardecista, do catolicismo e das tradições indígenas. Nela, os orixás assumem um papel mais distante, atuando como “linhas” ou energias que se manifestam através de entidades como caboclos, pretos-velhos e exus.
Sincretismo Religioso
Uma característica marcante da presença yoruba no Brasil é o sincretismo religioso, processo pelo qual os orixás foram associados a santos católicos como estratégia de resistência cultural durante o período escravocrata. Algumas das associações mais conhecidas incluem:
| Orixá | Santo Católico | Características Comuns |
| Oxalá | Jesus Cristo / Senhor do Bonfim | Criador, pai, veste branco |
| Iemanjá | Nossa Senhora dos Navegantes | Ligação com o mar, maternidade |
| Xangô | São Jerônimo / São João | Relação com trovões, justiça |
| Ogum | São Jorge | Guerreiro, porta espada |
| Oxum | Nossa Senhora da Conceição | Beleza, riqueza, fertilidade |
| Iansã | Santa Bárbara | Relação com tempestades, raios |
É importante ressaltar que, para os praticantes mais tradicionais, esse sincretismo foi apenas uma estratégia de sobrevivência cultural, e hoje muitos terreiros buscam “dessincretizar” suas práticas, retornando às raízes africanas.
Manifestações Culturais da Mitologia Yoruba no Brasil
A influência yoruba transcende o âmbito religioso e se manifesta em diversas expressões culturais brasileiras, desde a culinária até as artes, literatura e música. Essa presença demonstra como elementos da mitologia yoruba foram incorporados à identidade nacional brasileira.

Festa de Iemanjá em Salvador, uma das maiores celebrações públicas ligadas à mitologia yoruba no Brasil
Festas Populares
Diversas celebrações populares brasileiras têm origem ou influência yoruba. A Festa de Iemanjá, realizada em 2 de fevereiro em Salvador e no Ano Novo em diversas praias do país, é um dos exemplos mais conhecidos. Milhares de pessoas vestidas de branco levam oferendas como flores, perfumes e presentes ao mar, homenageando a rainha das águas salgadas.
Outras festas importantes incluem a Lavagem do Bonfim, também na Bahia, que combina elementos católicos e do candomblé; e as celebrações de Oxum em rios e cachoeiras, especialmente na região do Recôncavo Baiano.
Culinária
A culinária brasileira, especialmente a baiana, preserva sabores e técnicas yoruba. Pratos como o acarajé (bolinho de feijão fradinho frito no azeite de dendê, derivado do akará yoruba), o vatapá, o caruru e o xinxim de galinha são exemplos dessa herança. Muitos desses alimentos possuem significado ritual, sendo oferecidos aos orixás em cerimônias religiosas antes de se tornarem parte da gastronomia cotidiana.

Acarajé, prato tradicional baiano derivado do akará yoruba
Música e Dança
Os ritmos e instrumentos de origem yoruba influenciaram diversos gêneros musicais brasileiros. O samba, por exemplo, tem raízes nos batuques africanos. Instrumentos como o atabaque, o agogô e o xequerê são heranças diretas da cultura yoruba.
Na música popular contemporânea, artistas como Clara Nunes, Maria Bethânia, Gilberto Gil e Carlinhos Brown frequentemente incorporam elementos da mitologia yoruba em suas composições, ajudando a difundir esses conhecimentos para o grande público.
Artes Visuais e Literatura
Nas artes visuais, artistas como Carybé, Mestre Didi e Rubem Valentim criaram obras inspiradas na mitologia yoruba, representando orixás e símbolos sagrados. Na literatura, escritores como Jorge Amado, Mãe Stella de Oxóssi e Reginaldo Prandi contribuíram para a divulgação dos mitos e histórias dos orixás através de romances e estudos acadêmicos.

Arte contemporânea brasileira inspirada na simbologia dos orixás
A linguagem cotidiana brasileira também incorporou muitos termos de origem yoruba, como “axé” (energia vital), “babá” (pai/cuidador), “dendê” (óleo de palma), “acarajé” (bolinho de feijão) e muitos outros, demonstrando a profunda integração dessa cultura na identidade nacional.
A Importância da Preservação da Mitologia Yoruba
A mitologia yoruba representa não apenas um sistema de crenças religiosas, mas um patrimônio cultural imaterial que contribui significativamente para a diversidade e riqueza da identidade brasileira. Sua preservação é fundamental para a valorização da herança africana no Brasil e para o combate ao racismo e à intolerância religiosa.

Transmissão de conhecimentos sobre a mitologia yoruba para novas gerações
Nos últimos anos, tem havido um crescente interesse pela mitologia yoruba, tanto no âmbito acadêmico quanto na cultura popular. Esse movimento contribui para desmistificar preconceitos e valorizar a contribuição africana para a formação cultural brasileira. Iniciativas de educação sobre as religiões de matriz africana nas escolas, museus dedicados à cultura afro-brasileira e o reconhecimento legal do direito à liberdade religiosa são passos importantes nesse processo.
A mitologia yoruba nos ensina valores fundamentais como o respeito à natureza, a importância da comunidade, a valorização dos ancestrais e a busca pelo equilíbrio entre forças aparentemente opostas. Esses princípios continuam relevantes no mundo contemporâneo e podem contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e harmoniosa.
Ao conhecer e respeitar a mitologia yoruba, estamos não apenas preservando um importante legado cultural, mas também honrando a memória e a resistência dos milhões de africanos que, mesmo em condições adversas, conseguiram manter vivas suas tradições, enriquecendo profundamente a cultura brasileira.
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Referências e Leituras Recomendadas
- PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
- VERGER, Pierre Fatumbi. Orixás: Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo. Salvador: Corrupio, 2002.
- BENISTE, José. Mitos Yorubás: O Outro Lado do Conhecimento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.
- SANTOS, Juana Elbein dos. Os Nagô e a Morte. Petrópolis: Vozes, 2012.
- POLI, Ivan. Antropologia dos Orixás: A Civilização Iorubá a Partir de seus Mitos, seus Orikis e sua Diáspora. Rio de Janeiro: Pallas, 2019.

Livros fundamentais para o estudo da mitologia yoruba e suas manifestações no Brasil
























