Mitologia Japonesa: Um Universo de Deuses, Espíritos e Lendas Ancestrais
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A mitologia japonesa representa um vasto universo de histórias, divindades e criaturas que moldaram a identidade cultural do Japão por mais de dois milênios. Estas narrativas ancestrais não apenas explicam a criação do arquipélago japonês e a origem de seus imperadores, mas também refletem profundamente os valores, crenças e a relação única do povo japonês com a natureza e o sobrenatural.

Izanagi e Izanami, os deuses criadores, formando as primeiras ilhas do Japão
Conceitos Fundamentais da Mitologia Japonesa
Para compreender a mitologia japonesa, é essencial conhecer alguns conceitos-chave que formam a base de suas histórias e crenças. Estes elementos são fundamentais para a cosmovisão japonesa e continuam presentes na cultura contemporânea.
Kami: Os Deuses e Espíritos
Na mitologia japonesa, kami é um termo que designa divindades, espíritos ou forças da natureza. Diferente das religiões monoteístas, o xintoísmo (religião nativa do Japão) reconhece a existência de milhões de kami. Cada elemento da natureza – montanhas, rios, árvores, rochas – pode abrigar um kami, tornando o panteão japonês praticamente infinito.
Segundo a tradição, existem “oito milhões de kami” (八百万), número que simboliza o infinito na cultura japonesa. Estes kami podem ser benevolentes ou malignos, extremamente poderosos ou locais, e muitos desempenham papéis cruciais nos mitos fundadores do país.

Santuário xintoísta tradicional onde os kami são venerados
Yokai: Criaturas Sobrenaturais
Os yokai são criaturas sobrenaturais que povoam o folclore japonês. Diferente dos kami, que são divindades, os yokai representam manifestações do sobrenatural que podem assumir formas variadas – desde animais com poderes mágicos até objetos inanimados que ganham vida.
Estas criaturas podem ser travessas, perigosas ou protetoras. Exemplos famosos incluem o kappa (criatura aquática), o tengu (ser com características de ave) e o kitsune (raposa com poderes mágicos). Os yokai frequentemente aparecem em histórias para explicar fenômenos naturais ou servir como advertências morais.
Oni: Os Demônios Japoneses
Os oni são demônios ou ogros na mitologia japonesa, geralmente representados como criaturas gigantes com chifres, pele vermelha ou azul, e vestindo apenas uma tanga de pele de tigre. Tradicionalmente, são vistos como guardiões do mundo dos mortos ou punidores de pecadores.
Apesar de sua aparência assustadora, nem todos os oni são malignos. Alguns são retratados como protetores de templos ou divindades menores. Durante o festival Setsubun, os japoneses arremessam feijões gritando “Oni wa soto, fuku wa uchi” (“Demônios para fora, sorte para dentro”), um ritual para afastar os maus espíritos.

Representação tradicional de um Oni com sua clava (kanabo)
Mitos de Criação: O Nascimento do Japão
Os mitos de criação japoneses explicam não apenas a origem do universo, mas também a formação das ilhas japonesas e o estabelecimento da linhagem imperial. Estas narrativas são preservadas em textos antigos como o Kojiki (Registro de Assuntos Antigos, 712 d.C.) e o Nihon Shoki (Crônicas do Japão, 720 d.C.).
Izanagi e Izanami: Os Deuses Criadores
Segundo a mitologia, após várias gerações de deuses primordiais, surgiram Izanagi (o Pai do Céu) e Izanami (a Mãe da Terra). Estes irmãos divinos receberam a missão de criar terras no vasto oceano primordial. Para isso, utilizaram uma lança decorada com joias chamada Amenonuhoko.
Posicionados sobre a ponte flutuante do céu (Ama-no-ukihashi), eles agitaram o mar com a lança. Quando retiraram a arma, as gotas que caíram se solidificaram, formando a primeira ilha: Onogoro. O casal divino desceu até esta ilha e ergueu um pilar celestial, ao redor do qual construíram seu palácio.
Após um ritual de união, Izanagi e Izanami geraram as oito grandes ilhas do Japão (Oyashima), além de numerosas divindades que representam elementos da natureza como montanhas, rios e ventos. Tragicamente, ao dar à luz ao deus do fogo (Kagutsuchi), Izanami sofreu queimaduras fatais e faleceu.

Izanagi e Izanami usando a lança sagrada para criar as ilhas japonesas
Yomi: O Mundo dos Mortos
Devastado pela morte de Izanami, Izanagi decidiu viajar até Yomi (o mundo dos mortos) para trazê-la de volta. Ao encontrá-la na escuridão, Izanami explicou que já havia consumido alimentos do mundo inferior e não poderia retornar facilmente. Ela pediu que Izanagi não olhasse para ela enquanto negociava sua libertação.
Impaciente e ansioso, Izanagi acendeu uma luz e viu o corpo em decomposição de sua amada, infestado de vermes e habitado por divindades do trovão. Horrorizado, ele fugiu, perseguido por Izanami e pelos demônios do submundo. Para escapar, Izanagi selou a entrada de Yomi com uma enorme rocha.
Este mito estabelece não apenas a separação entre o mundo dos vivos e dos mortos, mas também explica a taxa de mortalidade e natalidade: Izanami prometeu levar mil vidas por dia, enquanto Izanagi jurou criar mil e quinhentas novas vidas no mesmo período.
Principais Divindades da Mitologia Japonesa
O panteão japonês é extremamente vasto, com milhares de divindades. Algumas destas, no entanto, ocupam posições centrais nas narrativas mitológicas e no culto religioso. Conheça as principais divindades que moldaram a cosmovisão japonesa.

Amaterasu
A deusa do sol e divindade suprema do panteão xintoísta. Nascida do olho esquerdo de Izanagi durante seu ritual de purificação, Amaterasu recebeu o domínio sobre Takamagahara (a Planície do Alto Céu) e é considerada a ancestral direta da família imperial japonesa.

Susanoo
O deus das tempestades e do mar, nascido do nariz de Izanagi. Conhecido por seu temperamento violento e impulsivo, Susanoo frequentemente entrava em conflito com sua irmã Amaterasu. Apesar disso, também é celebrado como herói por matar o dragão de oito cabeças, Yamata no Orochi.

Tsukuyomi
O deus da lua, nascido do olho direito de Izanagi. Embora menos proeminente nas narrativas mitológicas que seus irmãos, Tsukuyomi representa o domínio da noite e é frequentemente retratado como o contraponto de Amaterasu, estabelecendo o ciclo dia-noite.

Inari
Divindade da fertilidade, arroz, chá e prosperidade. Inari utiliza raposas (kitsune) como mensageiros e é uma das divindades mais populares do Japão, com milhares de santuários dedicados ao seu culto. Sua popularidade se deve à associação com a prosperidade econômica e agrícola.

Raijin e Fujin
Raijin, o deus do trovão, e Fujin, o deus do vento, frequentemente aparecem juntos como guardiões de templos. Raijin é representado cercado por tambores que produzem o som do trovão, enquanto Fujin carrega um saco que contém os ventos. Ambos são temidos e respeitados por seu poder sobre os elementos.

Hachiman
Deus da guerra e patrono dos guerreiros, Hachiman é baseado no imperador Ōjin, que viveu por volta do século III d.C. Após sua morte, foi deificado e tornou-se uma das divindades mais importantes para a classe samurai, sendo frequentemente invocado antes das batalhas.
Histórias Famosas da Mitologia Japonesa
Além dos mitos de criação, a mitologia japonesa é rica em histórias que explicam fenômenos naturais, ensinam lições morais ou celebram feitos heroicos. Estas narrativas continuam a inspirar a literatura, o cinema e as artes visuais japonesas até os dias atuais.
A Caverna de Amaterasu
Uma das histórias mais conhecidas envolve Amaterasu e seu irmão Susanoo. Após uma série de provocações e atos destrutivos de Susanoo, Amaterasu ficou tão perturbada que se escondeu em uma caverna chamada Ama-no-Iwato, levando toda a luz do mundo consigo e mergulhando o universo na escuridão.
Preocupados, os outros deuses se reuniram para elaborar um plano. Eles organizaram uma grande festa do lado de fora da caverna, com música e danças. A deusa Ame-no-Uzume realizou uma dança cômica sobre um barril virado, provocando risos estrondosos dos outros deuses.
Curiosa com a alegria do lado de fora, Amaterasu entreabriu a entrada da caverna. Nesse momento, os deuses posicionaram um grande espelho (Yata no Kagami) que refletiu a luz da própria Amaterasu. Fascinada por sua própria imagem, ela saiu completamente da caverna, e a luz retornou ao mundo.

Amaterasu emergindo da caverna Ama-no-Iwato, devolvendo a luz ao mundo
Yamata no Orochi
Após ser banido do céu, Susanoo chegou à província de Izumo, onde encontrou um casal de idosos chorando. Eles explicaram que tinham oito filhas, mas sete já haviam sido devoradas por um terrível dragão de oito cabeças e oito caudas chamado Yamata no Orochi. A última filha, Kushinada-hime, seria a próxima vítima.
Susanoo prometeu matar o monstro em troca da mão de Kushinada-hime em casamento. Ele transformou a jovem em um pente que colocou em seus cabelos para protegê-la. Em seguida, preparou oito barris de sake forte e os posicionou onde o dragão apareceria.
Quando Yamata no Orochi chegou, cada uma de suas cabeças bebeu de um barril até que o monstro ficou completamente embriagado. Susanoo então atacou com sua espada, matando o dragão. Ao cortar sua cauda, encontrou uma espada mágica chamada Kusanagi-no-Tsurugi, que mais tarde se tornaria um dos três tesouros imperiais do Japão.

Susanoo enfrentando o dragão de oito cabeças Yamata no Orochi
Urashima Tarō
Urashima Tarō é um pescador que salva uma tartaruga sendo atormentada por crianças. Como recompensa, a tartaruga o leva para o Palácio do Dragão (Ryūgū-jō) sob o mar, onde ele conhece a princesa Otohime. Após três dias de festividades, Urashima decide retornar à sua aldeia.
A princesa lhe dá uma caixa misteriosa (tamatebako) com a instrução de nunca abri-la. Ao retornar à superfície, Urashima descobre que se passaram não três dias, mas trezentos anos. Todos que conhecia estavam mortos, e sua casa não existia mais.
Desesperado, ele abre a caixa proibida, liberando uma nuvem branca que instantaneamente o transforma em um velho de cabelos brancos. A caixa continha sua verdadeira idade, que havia sido suspensa enquanto esteve no palácio submarino.

Urashima Tarō sendo recebido no Palácio do Dragão pela princesa Otohime
Influência Cultural da Mitologia Japonesa
A mitologia japonesa não é apenas um conjunto de histórias antigas, mas uma força viva que continua a moldar diversos aspectos da cultura japonesa contemporânea e que ganhou projeção global através de diferentes meios artísticos.
Conexão com o Xintoísmo
O xintoísmo, religião nativa do Japão, está intrinsecamente ligado à mitologia japonesa. Os mitos não são vistos apenas como histórias, mas como registros sagrados da origem do país e de suas divindades. Nos santuários xintoístas, os kami são venerados através de rituais que remontam a milênios.
Festivais (matsuri) celebrados por todo o Japão frequentemente homenageiam divindades específicas ou eventos mitológicos. O festival Setsubun, por exemplo, envolve o arremesso de feijões para expulsar oni (demônios), enquanto o Tanabata celebra o encontro anual de duas estrelas amantes, baseado em uma antiga lenda.

Festival xintoísta tradicional com mikoshi (santuário portátil) carregado pelos participantes
Mitologia na Cultura Pop
A mitologia japonesa tem sido uma fonte inesgotável de inspiração para a cultura pop contemporânea, especialmente para anime, mangá e videogames. Séries como “Noragami”, “Inuyasha” e “Naruto” incorporam elementos mitológicos em suas narrativas, enquanto jogos como a série “Final Fantasy” e “Okami” reinterpretam deuses e lendas japonesas.
Personagens como kitsune (raposas mágicas), tanuki (cães-guaxinins metamorfos) e yokai diversos aparecem regularmente em obras de ficção. O filme “A Viagem de Chihiro”, do Studio Ghibli, apresenta diversos elementos da mitologia e folclore japonês, incluindo divindades de rios e espíritos da natureza.

Representações modernas de yokai e kami em animes contemporâneos
Arte e Literatura
Na arte tradicional japonesa, temas mitológicos são recorrentes em pinturas, esculturas e gravuras ukiyo-e. Artistas como Katsushika Hokusai e Utagawa Kuniyoshi frequentemente retratavam deuses, heróis e monstros da mitologia em suas obras.
Na literatura, desde os clássicos como “O Conto de Genji” até obras contemporâneas, elementos mitológicos são incorporados para adicionar profundidade simbólica e conectar as narrativas à herança cultural japonesa. Autores como Haruki Murakami frequentemente entrelaçam realidade e elementos sobrenaturais derivados da mitologia em suas obras.
A Relevância Contemporânea da Mitologia Japonesa
Mesmo em uma era de avanços tecnológicos e científicos, a mitologia japonesa mantém sua relevância como parte fundamental da identidade cultural do país. Estas narrativas ancestrais continuam a oferecer insights sobre a relação dos japoneses com a natureza, a espiritualidade e os valores sociais.
Para além das fronteiras do Japão, a mitologia japonesa ganhou admiradores em todo o mundo, contribuindo para o soft power japonês e para o interesse global pela cultura do país. Através de adaptações criativas em diversos meios, estas histórias milenares encontram novas formas de ressoar com audiências contemporâneas.
Ao explorar a mitologia japonesa, não apenas descobrimos histórias fascinantes de deuses, heróis e monstros, mas também ganhamos uma janela para compreender melhor a rica e complexa cultura que moldou uma das civilizações mais influentes do mundo.
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