Mitologia Eslava: Deuses, Criaturas e Crenças dos Povos Eslavos
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Mitologia Eslava: O Universo Místico dos Povos do Leste Europeu
A mitologia eslava representa um rico tecido de crenças, deuses e criaturas sobrenaturais que moldaram a visão de mundo dos povos eslavos por milênios. Originária das regiões que hoje compreendem a Rússia, Polônia, Ucrânia, República Tcheca e outros países do Leste Europeu, essa tradição mitológica se baseia na profunda conexão com a natureza e na dualidade entre forças opostas. Mergulhe conosco neste universo fascinante onde deuses poderosos controlam os elementos, espíritos guardam as casas e florestas, e criaturas místicas habitam rios e lagos.
Contexto Histórico e Origens da Mitologia Eslava

Distribuição geográfica dos povos eslavos na Europa Oriental
Os eslavos formam o maior grupo étnico e linguístico da Europa, com raízes que remontam ao primeiro milênio antes de Cristo. Suas migrações para a Europa Central e Oriental ocorreram principalmente entre os séculos V e VI d.C., seguindo os povos germânicos. A mitologia eslava se desenvolveu como uma forma de explicar os fenômenos naturais e estabelecer uma ordem no mundo, muito antes da chegada do cristianismo à região.
Os antigos eslavos eram animistas, acreditando que todas as coisas na natureza possuíam espírito e vida própria – desde pedras e árvores até rios e montanhas. Essa visão de mundo fundamentou um sistema de crenças rico em divindades, espíritos e criaturas sobrenaturais que interagiam constantemente com o mundo dos humanos.
Infelizmente, poucos registros escritos originais sobreviveram sobre a mitologia eslava. A cristianização dos povos eslavos, que começou no século IX, resultou na supressão sistemática das crenças pagãs. Grande parte do conhecimento que temos hoje vem de fontes secundárias, como crônicas medievais escritas por cristãos, análises de folclore preservado e estudos arqueológicos.
Cosmologia e Visão de Mundo Eslava

A Árvore do Mundo conectando os três reinos na cosmologia eslava
Na visão cosmológica eslava, o universo era dividido em três domínios principais: Prav (o mundo celestial das leis divinas), Yav (o mundo material onde vivem os humanos) e Nav (o mundo subterrâneo associado à morte e escuridão). Esses três reinos eram conectados pela Árvore do Mundo, um conceito comum em muitas mitologias indo-europeias.
A divisão entre luz e escuridão era fundamental na mitologia eslava. O fogo desempenhava um papel crucial, associado ao sol e às divindades benevolentes, enquanto o frio estava ligado ao inverno, à morte e aos deuses negativos. Essa dualidade se refletia no panteão eslavo, com deuses claros (Perun, Veles, Dazhbog, Mokosh e Svarog) representando a luz e o calor, e deuses escuros (Chernobog, Morana) simbolizando a escuridão e o frio.
Os eslavos acreditavam que após a morte, as almas iam para Irii (ou Vyriy), uma versão eslava do paraíso onde residiam os deuses e por onde corria um rio de leite, frequentemente associado à Via Láctea. Essa crença em uma vida após a morte influenciou profundamente os rituais funerários e as práticas religiosas dos povos eslavos.
Principais Deuses da Mitologia Eslava

Perun, o deus supremo do trovão e dos raios na mitologia eslava
Perun: O Senhor do Trovão
Perun é indiscutivelmente o deus supremo do panteão eslavo. Adorado em vastas extensões da Europa eslava, ele era o senhor dos céus, deus do relâmpago e do trovão. Seu nome significa “Aquele que golpeia”, e ele era frequentemente comparado a Thor na mitologia nórdica ou Zeus na mitologia grega. Perun era representado com uma estátua de carvalho, cabeça de prata e bigode de ouro, e seus símbolos incluíam o carvalho, o machado e o dragão.
Como divindade da guerra e da fertilidade, Perun cavalgava pelos céus em uma carruagem puxada por um bode gigantesco, lançando raios que fertilizavam a terra. Sua importância era tal que o Príncipe Vladimir, o Grande, ergueu uma estátua em sua homenagem em Kiev em 980 d.C., antes da conversão ao cristianismo.
Veles: Senhor do Submundo
Veles (ou Volos) era talvez o segundo deus mais importante da mitologia eslava. Conhecido como o “deus do gado”, ele também estava ligado à riqueza, magia, poesia, juramentos, ao submundo e aos mortos. Em algumas tradições, Veles era visto como o antagonista mítico de Perun, representando uma dualidade cósmica essencial.
Após a cristianização, alguns estudiosos sugerem que Veles foi associado ao diabo na tradição cristã. No folclore tcheco do século XVI, a expressão “Vá para Veles!” era equivalente a “Vá para o diabo!”.

Mokosh, a principal deusa feminina da mitologia eslava
Mokosh: A Grande Deusa
Mokosh (ou Makosh) era uma das principais divindades da mitologia eslava e a mais importante deusa feminina. Seu nome pode ser traduzido como “Mãe Fortuna”, onde “ma” seria parte de “mãe” e “kosh” uma antiga palavra eslava para destino ou fortuna. Ela zelava pelas mulheres, pela fertilidade, colheitas, magia e riquezas da casa.
Uma característica importante de Mokosh era seu papel como guardiã do “tear do destino”, sendo auxiliada por Dolya e Nedolya. Em suas representações, ela aparecia com uma grande cabeça e, ocasionalmente, com chifres. Após a cristianização, muitos de seus atributos foram transferidos para Santa Paraskeva na tradição ortodoxa.
Outros Deuses Importantes
Svarog: Deus do sol, do fogo celestial e da ferraria, frequentemente identificado com o grego Hefesto. Era considerado o criador do mundo e pai de todos os deuses.
Dazhbog: Filho de Svarog, era uma divindade solar e deus do fogo sagrado da lareira. Seu nome significa “deus doador”, e acreditava-se que os humanos eram seus netos.
Stribog: Deus da riqueza e dos ventos, controlava as tempestades e as condições climáticas.
Triglav: Divindade de três cabeças que representava os três reinos (céu, terra e submundo). Seu nome significa “três cabeças”, e ele estava ligado a juramentos e adivinhação.
Morana: Deusa da peste, escuridão, inverno e morte. Representada com símbolos como crânios rachados, a lua negra e uma foice com a qual cortava os fios da vida.
Sventovit: Um dos mais famosos deuses eslavos com várias cabeças, frequentemente retratado com um cavalo branco e associado à guerra e adivinhação.
Espíritos e Criaturas da Mitologia Eslava

Baba Yaga em sua famosa casa com pernas de galinha na floresta
Baba Yaga: A Bruxa da Floresta
Baba Yaga é uma das criaturas mais famosas da mitologia eslava, presente em muitos contos russos, bielorrussos e ucranianos. Ela é retratada como uma velha bruxa deformada e feroz que voa pelos céus montada em um almofariz, usando um pilão para impulsioná-lo e uma vassoura para apagar seus rastros.
Sua casa na floresta tinha pernas de galinha e podia se mover, com uma cerca feita de ossos humanos e crânios. Embora geralmente retratada como uma vilã que perseguia e devorava pessoas, especialmente crianças, algumas versões a apresentam como uma figura ambígua que testava os heróis e oferecia sabedoria aos dignos.
Domovoi: O Espírito do Lar
O Domovoi era um espírito protetor do lar na mitologia eslava. Representado como um velho que se escondia no porão ou no sótão, ele podia proteger a casa e trazer boa sorte – mas apenas se o dono não o irritasse. Caso contrário, o Domovoi amaldiçoaria a casa e a família.
Para manter boas relações com este espírito, os moradores deixavam presentes como uma fatia de pão, lã de ovelha ou um objeto brilhante. O Domovoi era considerado um ancestral da família que continuava a cuidar de seus descendentes após a morte.

Rusalkas, os sedutores e perigosos espíritos aquáticos femininos
Rusalka: As Ninfas das Águas
As Rusalkas eram espíritos femininos associados à água, especialmente rios e lagos. Frequentemente retratadas como jovens mulheres belas com longos cabelos verdes ou azuis e pele clara, acreditava-se que eram almas de mulheres que morreram afogadas antes de se casarem ou que foram traídas por seus amantes.
Semelhantes às sereias de outras mitologias, as Rusalkas atraíam homens com sua beleza e cantos melodiosos, levando-os às profundezas das águas onde se afogavam. Em algumas versões, elas dançavam com os homens até que estes morressem de exaustão. As Rusalkas também podiam se transformar em animais como cobras, lobos, cisnes ou falcões.
Outras Criaturas Notáveis
Vodník: Espíritos aquáticos masculinos representados como homens com aparência grotesca, cobertos de algas. Podiam ser tanto protetores quanto vingativos, sequestrado pessoas que se aproximavam das águas sem o devido respeito.
Leshy: Espírito das florestas e da caça, capaz de mudar seu tamanho e altura. Frequentemente retratado cercado por matilhas de ursos e lobos, podia desviar viajantes do caminho ou sequestrar crianças.
Kikimora: Versão feminina do Domovoi, habitava a casa atrás do fogão ou no porão. Foi a primeira explicação para a paralisia do sono na cultura russa, acreditando-se que sentava no peito das pessoas durante o sono.
Zmey Gorynych: O dragão eslavo, representado como uma criatura policéfala que falava a língua dos humanos. Podia mudar de forma e aparência, transformando-se em um belo jovem para enganar suas vítimas.
Rituais e Práticas Religiosas

Ritual eslavo antigo em torno de um carvalho sagrado, árvore associada ao deus Perun
Os rituais religiosos eslavos estavam profundamente conectados aos ciclos da natureza e às estações do ano. Celebrações importantes marcavam os solstícios e equinócios, bem como momentos cruciais do calendário agrícola como o plantio e a colheita.
O culto aos deuses era realizado em locais sagrados ao ar livre, frequentemente em bosques, montanhas ou próximo a corpos d’água. Ídolos de madeira representando as divindades eram erguidos nesses locais, onde os fiéis deixavam oferendas e realizavam sacrifícios. O carvalho era considerado particularmente sagrado, especialmente associado a Perun.
Uma prática ritual interessante que sobreviveu até os tempos modernos em algumas regiões é a tradição de Dodola, associada à deusa da chuva. Nesta cerimônia, uma jovem vestida com uma saia de trepadeiras e ramos verdes desfilava pela aldeia, cantando e dançando, enquanto os moradores jogavam água sobre ela, simbolizando a chuva, a fertilidade e o florescer da vida na primavera.
Impacto Cultural e Legado

Influência da mitologia eslava na arte e cultura contemporâneas
Apesar da cristianização dos povos eslavos, muitos elementos da antiga mitologia sobreviveram no folclore, nas tradições populares e nos costumes. Festivais sazonais, canções, danças e contos populares preservaram aspectos das antigas crenças, muitas vezes sincretizados com elementos cristãos.
A mitologia eslava tem experimentado um renascimento nas últimas décadas, inspirando literatura, música, artes visuais, jogos e filmes. Personagens como Baba Yaga, as Rusalkas e os deuses eslavos aparecem regularmente em obras de fantasia contemporâneas, tanto de autores eslavos quanto internacionais.
Em alguns países eslavos, movimentos neopagãos têm buscado reviver as antigas práticas religiosas, adaptando-as ao mundo moderno. Esses grupos, conhecidos como Rodnovery (Fé Nativa), procuram reconstruir as crenças e rituais pré-cristãos com base em pesquisas arqueológicas, folclóricas e históricas.
Relevância Contemporânea da Mitologia Eslava

Festival contemporâneo celebrando e preservando tradições eslavas antigas
A mitologia eslava continua relevante no mundo contemporâneo, oferecendo insights valiosos sobre a relação dos antigos eslavos com a natureza, a comunidade e o cosmos. Em uma era de crescente preocupação ambiental, as crenças animistas eslavas, que viam toda a natureza como sagrada e viva, podem inspirar uma abordagem mais respeitosa ao meio ambiente.
Os arquétipos e narrativas da mitologia eslava também continuam a ressoar psicologicamente, abordando temas universais como a dualidade entre luz e escuridão, vida e morte, ordem e caos. Figuras como Baba Yaga, que representa tanto o perigo quanto a sabedoria, continuam a fascinar por sua complexidade e ambiguidade.
Para muitas pessoas de ascendência eslava, explorar essa mitologia oferece uma conexão com suas raízes culturais e uma compreensão mais profunda de tradições familiares que podem ter sido preservadas através de gerações. Mesmo para aqueles sem essa herança, a mitologia eslava proporciona uma janela fascinante para uma visão de mundo única e rica que complementa o estudo de outras tradições mitológicas.
Conclusão

Representação simbólica da dualidade entre forças opostas na mitologia eslava
A mitologia eslava representa um tesouro cultural inestimável que nos conecta com as crenças, valores e visão de mundo dos antigos povos eslavos. Seu rico panteão de deuses, espíritos e criaturas sobrenaturais reflete uma profunda compreensão da natureza humana e do mundo natural, expressa através de símbolos e narrativas poderosas.
Embora muitos aspectos dessa tradição mitológica tenham sido perdidos com a cristianização, seus ecos continuam a ressoar no folclore, nas tradições populares e na cultura contemporânea dos povos eslavos. O renovado interesse por essas antigas crenças nas últimas décadas demonstra sua contínua relevância e poder de inspiração.
Ao explorar a mitologia eslava, não apenas ampliamos nosso conhecimento sobre uma importante tradição cultural, mas também enriquecemos nossa compreensão da diversidade de formas pelas quais os seres humanos têm buscado dar sentido ao mundo e ao seu lugar nele. As histórias dos deuses como Perun e Veles, de criaturas como Baba Yaga e as Rusalkas, e de espíritos como o Domovoi, continuam a nos fascinar e a nos convidar a ver o mundo através de uma lente diferente – uma que reconhece o mistério, a magia e o sagrado na natureza e na vida cotidiana.
























